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Jun 19
2011

Surto de Escherichia coli Enterohemorrágica (EHEC) na Europa

Postado por: biosafeadmin em Artigos e Notícias

A Escherichia coli é uma espécie de bactéria encontrada comumente no intestino de humanos e animais de sangue quente, sendo que a maioria das cepas desta espécie é inofensiva. A cepa desta espécie que está sendo implicada neste surto de imensas proporções (39 mortos, 3507 doentes, 837 com SHU até 17 de junho de 2011) possui genes dos tipos (patotipos) Escherichia coli enteroagregativa (EAEC) e Escherichia coli enterohemorrágica (EHEC), que é produtora de toxinas shiga ou verotoxinas. A EAEC é um tipo de Escherichia coli mais encontrado em seres humanos, enquanto a EHEC é mais encontrada em ruminantes, mais especificamente em bovinos. Esta cepa, que é um híbrido dos dois patotipos, parece ter mais genes da EAEC (93% de similaridade) de origem humana.

A toxinfecção por este tipo de bactéria pode provocar diarréia de aquosa a sanguinolenta, distúrbios em células do sangue, lesão grave nos rins e, em alguns casos, lesões no sistema nervoso.  Para se tratar esta infecção não se recomenda o uso de antibióticos ou de drogas antidiarreicas. O uso de antibióticos na maioria dos casos provocou o agravamento do quadro clínico, pois estimulou a liberação de mais toxinas shiga pelas bactérias. O uso de antidiarreicos piora o quadro, pois impede a excreção da bactéria pelas fezes, o que é uma das formas de defesa do nosso organismo. Uma droga imunomoduladora que está em fase de testes e hemodiálise juntamente com plasmaferese têm sido empregados como tratamentos alternativos com algum sucesso.

O sorotipo implicado até o momento com o surto é o O104:H4. Este sorotipo é muito raro, mas já foi implicado em outros casos de toxinfecção alimentar (na Finlândia em 2010, na República da Georgia em 2009, na Coréia do Sul em 2005, na França em 2004 e na Alemanha em 2001). Este surto é bastante incomum pela rapidez com que está se espalhando, pelo elevado índice de casos severos (Síndrome Hemolítica Urêmica - SHU) e pelo grupo de pessoas que está atingindo (adultos jovens, na maioria mulheres). Normalmente o grupo mais atingido são as crianças muito jovens e os idosos. Além disto, esta cepa é multiresistente a antibióticos (ampicillina, amoxicillina/ ácido clavulânico, piperacillina/sulbactam, piperacillina/tazobactam, cefuroxima, cefuroxima-axetil, cefoxitina, cefotaxima, cetfazidima, cefpodoxima, estreptomicina, ácido nalidíxico, tetraciclina e trimetoprim/sulfametoxazol  que pertencem as classes dos β-lactâmicos de espectro entendido, dosβ- lactâmicos associados com inibidores de β- lactamases, dos aminoglicosídeos, da tetraciclina, das associações de sulfonamidas com diaminopirimidinas edasquinolonas)  o que pode ser explicado pelo uso inadequado dos mesmos por leigos e até por profissionais de saúde.

 Até o momento, a bactéria só foi encontrada em brotos (sementes germinadas) da Baixa Saxônia que já haviam sido manipulados por membros de uma família que desenvolveu a doença. Isto leva a crer que a origem real do surto ainda é incerta, mas não se descarta a hipótese da ocorrência da contaminação de alimentos por fezes humanas ou por água contaminada com as mesmas. A recomendação emergencial é que as pessoas não consumam brotos crus (ou produtos que tiveram contato com estes) e lavem as mãos com freqüência (principalmente após ir ao banheiro), especialmente as que cuidam de pessoas imunocomprometidas e crianças pequenas.

Ao que parece, esta bactéria deve ter sido um habitante normal do intestino humano ou dos intestinos de animais de produção que teve a chance de se multiplicar quando o uso de vários antibióticos foi eliminando as outras bactérias não resistentes que competiam com ela dentro do intestino. Em número elevado, ela foi capaz de causar infecção e se espalhar. Este surto não é só preocupante pela sua transmissão através dos alimentos, é preocupante, pois está espalhando uma bactéria altamente agressiva e resistente com capacidade para transmitir estes genes de agressividade e resistência a outras bactérias, até de outras espécies ou gêneros que poderão estar causando outros tipos de infecção.  Provavelmente estas bactérias foram selecionadas pelo uso inadequado de antibióticos. Quando a bactéria se torna multirresistente, ou não se dispõe de medicamentos capazes de controlar as infecções ou os mesmos são muito tóxicos, gerando uma série de reações adversas severas para o organismo humano. A OMS, devido à alta incidência de infecções por bactérias multiresistentes a antibióticos, vem promovendo uma forte campanha de conscientização dos profissionais de saúde do mundo inteiro com relação ao uso racional de antibióticos neste ano de 2011. Com a racionalização do uso de antibióticos, o equilíbrio onde as bactérias benéficas competem inibindo o crescimento das bactérias causadoras de doenças dentro do nosso organismo poderá ser restaurado.

Enquanto isto, os órgãos de saúde dão várias recomendações com relação às boas práticas agrícolas, boas práticas de fabricação e higiene adequada dos alimentos durante a comercialização, nos serviços de alimentação e na manipulação dentro de casa.

Com relação às boas práticas agrícolas:

  • Evitar o acesso dos animais da fazenda (em particular dos ruminantes) ao ambiente onde os produtos frescos são cultivados ou armazenados;
  • Controlar a fonte, o manuseio e o tratamento do adubo e do lodo utilizados para fertilizar os campos onde serão cultivados produtos para o consumo humano;
  • Utilizar água de boa qualidade microbiológica para a irrigação e outras práticas agriculturais.
  •  

Com relação às boas práticas de fabricação:

  • Uso de água de boa qualidade microbiológica para o processamento posterior;
  • Assegurar treinamento básico de higiene para os manipuladores de alimentos;
  • Assegurar o desenho adequado e o gerenciamento da higiene nas instalações, incluindo o controle de pragas;

Pode-se fazer o uso de técnicas como a irradiação de alimentos para reduzir ainda mais a carga microbiana durante a fase de processamento.

Com relação à higiene adequada durante a distribuição e venda dos alimentos:

  • Assegurar treinamento em boas práticas de higiene para toda equipe que manuseia os alimentos;
  • Fazer o gerenciamento da cadeia de frio (manter os produtos refrigerados) durante estes processos, o que será particularmente importante para produtos frescos prontos para o consumo.

 Com relação à higiene adequada nos serviços de alimentação e dentro de casa:

  • Lavar as mãos antes e depois de preparar os alimentos;
  • Lavar frutas e vegetais com água potável e corrente;
  • Evitar a contaminação cruzada;
  • Manter os alimentos em temperaturas baixas;
  • Descascar e cozinhar as frutas e vegetais sempre que possível, antes de consumi-los.

 Normas gerais de higiene pessoal

Lave as suas mãos com água e sabão, enxágüe adequadamente e seque-as utilizando toalhas de papel descartáveis ou de tecidos que poderão ser lavados à 60 oC nas seguintes situações:

  • Antes de preparar, servir ou ingerir alimentos
  • Após o uso do banheiro ou a troca de fraldas
  • Após manusear vegetais crus, raízes ou carnes
  • Após o contato com animais de fzenda ou visitar uma fazenda
  • Após qualquer contato com fezes de animais de estimação

 Normas Gerais para o Manuseio de Alimentos

  • Qualquer pessoa com diarréia ou vômitos não deve manusear alimentos;
  • Carnes, inclusive carnes moídas, devem ser totalmente cozidas;
  • Todas as frutas com casca devem ser descascadas e lavadas com água corrente potável;
  • Todos os vegetais devem ser adequadamente lavados em água potável corrente, especialmente aqueles que não serão cozidos antes do consumo;
  • Cozinhar totalmente os vegetais e carnes destrói vírus e bactérias causadoras de doenças;
  • Evite a contaminação cruzada, ou seja, o espalhamento de bactérias presentes em alimentos crus para alimentos prontos para o consumo. Use tábuas e facas diferentes para carnes cruas e cozidas ou vegetais frescos e lave a tábua e a faca com água e sabão entre o uso para alimentos crus e prontos para o consumo.

Cynthia Annes Rubião – Médica Veterinária – Especialista em Bacteriologia

 

Fontes:

Autoridade Européia em Segurança de Alimentos

Escola de Medicina da Universidade Nacional de Chonnam

Centro de Controle de Doenças dos EUA

Centro Europeu para a Prevenção e Controle de doenças

Instituto Robert Koch

Instituto Internacional de Análise de Risco da Alemanha

Organização Mundial de Saúde

Sociedade Internacional de Doenças Infecciosas

 

 

 

 

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